O nascimento de uma AMAZONAS

a motovolks com quadro de Indian

(íntegra de uma reportagem no "Moto Jornal" pg. 03 de 1976)

Uma Indian 1200 cc, um Volks 1300. Surge uma moto muito louca

"Louco", era como seus amigos o chamavam quando José de Melo Ferreira começava a mexer naquele quadro de Indian 1200 cc e adaptava um motor Volksvagen 1300. Mesmo assim, ninguém deixava de incentivá-lo a terminar o projeto. Quase um ano depois, a máquina ficou pronta. "Uma máquina muito louca", que chama a atenção de todos quando passa e entretém um curioso por várias horas, pela riqueza de detalhes. O trabalho foi grande, os gastos também, mas mesmo com as ofertas tentadoras, José não quis vendê-la por preço algum. "Eu construí a máquina que queria, agora vou ficar com ela em definitivo".

Faz 10 ou 12 anos que José , de 27, anda de motocicleta. "Não me lembro ao certo, apenas que faz muito tempo". José também faz parte de um grupo de pessoas muito restrito, além de gostar apenas de máquinas grandes, não anda com motocicletas novas, mesmo as européias ou as americanas. "Essas máquinas modernas, ele explica, têm a manutenção muito cara e sempre dão problemas, afinal foram feitas para serem usadas por pouco tempo".

"As antigas continuam, você pode mexer que a mecânica é mais simples, pode cortar, reformar, deixá-la muito mais a seu gosto e também são mais resistentes".

Serralheiro, José Ferreira já teve Harley 1942, 46, 48 e 51. Mesmo sendo pequeno, comprou uma Indian 1945 e resolveu repetir o que ele havia ajudado o famoso "Luizão" a fazer: colocar um motor de Volks em uma motocicleta.

Agora seus planos eram mais arrojados, tirou o motor original e começou a adaptação do 1300 num local aparentemente impossível, no quadro de uma motocicleta. Com isso ele afastou-se um pouco do grupo de motociclistas da Vila Carrão muito conhecido naquela região por acompanharem todas as festas e principalmente casamentos do pessoal dos bairros próximos. Os fins de semana eram gastos em sua oficina ajeitando, pensando cortando e tentando achar uma solução para os impasses. "Quando você restaura uma motocicleta antiga e conserva o motor, é bem mais fácil porque quando uma peça não serve, você leva uma velha, mesmo quebrada, para o torneiro, como modelo. No meu caso, às vezes eu nem sabia direito como deveria ser a peça e posso garantir que os torneiros não gostavam nada e por isso demoravam bastante para fazê-la".

Muitas vezes José ia apenas com a descrição do que queria, não tinha muita idéia do tamanho da peça, depois, quando o torneiro acertava o esquema, ele tinha que adaptar da maneira como queria, "na lima mesmo". O serralheiro modificou a bomba de óleo, eliminou a de gasolina, adaptou um radiador de óleo de Brasília, freios a disco do Corcel, usou cilindros mestres do Volks e o painel de um carro também fora de linha: o Esplanada. O pára-brisa, pára-lamas, guidão e boa parte das peças internas do motor, ele mesmo "bolou" e para isso o trabalho não foi pequeno; muita coisa foi refeita até que ficasse do seu gosto.

A grande diferença de sua "Volkscicleta" da que "Luizão" construiu, é a marcha à ré. "Eu com o tamanho que tenho - pouco mais de 1,60m - não agüento empurrar a máquina, daí, a solução encontrada foi colocar marcha à ré. Muita gente não acredita nem que eu consiga subir na moto, e fica de boca aberta quando a vê andando para trás."

José, que aprendeu a mexer em motocicleta com experiência própria e com o "Chico das Harley", conta que enfrentou muitas situações engraçadas com a motocicleta:- Eu ainda não rodo muito com ela porque o licenciamento não fico pronto, mas quando saio com ela é um furor. Muitos me param para perguntar a marca e os motoristas se espantam quando ouvem o barulho de motor de Volks e vêm só uma moto do lado.

Um de seus primeiros problemas foi com vazamento de óleo, como ele entende de motos, mas confessa não saber nada de Volks, levou para um amigo que tem oficina de carros. O mecânico ficou assustado quando José mostrou o "carro" que estava com problemas.

Além do motor, José colocou toca-fitas, rádio FM, antena elétrica e partida elétrica. Segundo ele mesmo, "Essa é a motocicleta mais romântica do Brasil onde, além de Ter conforto, o motociclista e garupa podem "curtir" um som com tranqüilidade". Muito colorida, a "Volkscicleta" de José Ferreira pode fazer uma média de 14 a 16 Km/l e alcançar 180 Km/h, "com estabilidade" e o gasto, depois de quase um ano de adaptações foi de Cr$ 25.000,00. O quadro teve cerca de 12 ou 15 modificações e o que mais deu trabalho foi o câmbio, muito grande em relação ao quadro, o que não aconteceu com o motor.

Assim que terminar o licenciamento, a primeira coisa que vai fazer é ir até Aparecida do Norte, já que este ano não pôde participar da romaria dos motoqueiros. E, para José, essa adaptação é a solução ideal para quem gosta de viajar muito, pois qualquer problema, "apesar de serem raros", pode ser solucionado em oficina especializada na do motor. "E também não existe problema de manutenção, a única coisa que faço é colocar gasolina, o peso da moto não foi quase alterado e a estabilidade até aumentada. O conforto é o mesmo que um carro, com a vantagem de se poder sentir a natureza mais de perto, não se ficar fechado".

Agora José vai começar a "fazer" uma motocicleta esporte para pessoa que está cuidando da documentação da sua motocicleta, "o sr. Wilson, um "cara" muito bacana", o quadro é de "Indian" também e desta vez será mais fácil ainda, afinal, a experiência de duas máquinas já lhe dá muita tarimba para pensar em outras "invenções". A máquina que terminei, já me ofereceram mais de Cr$ 60.000,00, mas eu não quero vender, não. Ela é a motocicleta definitiva. Talvez, um dia, mais tarde eu parta para uma outra, mas por enquanto vou construir essa do meu amigo e fazer as modificações que for "bolando" na minha cabeça. Se alguém quiser industrializar, a gente pensa bem e pode até sair negócio.

Informações de copyright. (by Carlão)
Última revisão: Nov 10/2013
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